segunda-feira, 16 de agosto de 2010


“ATIRE A PRIMEIRA PEDRA...”

Helio e Selma Amorim
MFC/RJ

Há pouco foi executado nos Estados Unidos mais um condenado à pena de morte, depois de anos de prisão enquanto atuavam seus advogados. Foi-lhe concedida a “graça” de escolher a modalidade da execução, nenhuma delas apropriada para fotografias e filmagem. Tudo foi tratado friamente, conforme procedimentos burocráticos e processuais de um país aparentemente civilizado, que mata de forma científica seres humanos culpados (nem sempre) de crimes de morte.

O condenado escolheu o fuzilamento. Uma cadeira do tipo trono de espaldar alto, numa sala de execuções, foi mostrada nas TVs de todo o mundo, com suas correias para imobilizar o condenado e facilitar o tiro certeiro de alguns atiradores de elite. Quem não se horrorizou com essa demonstração de frieza na eliminação coreografada de uma vida humana deve recorrer a terapias especializadas. Aquele país contabiliza mais de um milheiro de execuções em sua história republicana.

Muitos outros países adotam a mesma doutrina cruel e inútil de combate ao crime, matando o criminoso. E a criminalidade continua viva e feroz, sem medo dessa penalidade exposta nas telas de nossas casas. O Irã tem exibido criminosos enforcados em série, para igual pavor de assustados telespectadores.

Agora surge nas telas Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher condenada por acusação de adultério cuja pena é morte por apedrejamento. A condenada é enterrada até o peito, com os braços amarrados para impedir qualquer defesa do alvo. "Quem vai atirar a primeira pedra?" - escreveu há tempos na areia Jesus de Nazaré. Não se sabe qual foi a pena do homem parceiro do pretenso adultério ou se o crime é exclusivamente feminino. As reações mundo afora levam a justiça iraniana a inventar e forçar a confissão filmada de cumplicidade no assassinato do marido para reverter a execução por pedradas para enforcamento e acalmar o clamor mundial. A incrível confissão dublada de rosto coberto não convenceu nem o mais ingênuo habitante do planeta.

Em nosso país essa estupidez continua rejeitada sempre que algum carrasco potencial propõe a adoção da pena de morte. Por outro lado, a benevolência por aqui é extravagante: o jornalista que assassinou a namorada por motivo torpe e sem chance de defesa da vítima, réu confesso e condenado pela justiça, permanece livre há quase dez anos, aguardando a prescrição do crime. Prêmio Nobel para o seu advogado e vaia do porte Maracanã para a justiça lerda, menos cega do que preguiçosa.

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